terça-feira, 29 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 5: O método de nossa análise da consciência

      Visão estática e visão dinâmica

Continuando nesta propedêutica inicial, ressaltaremos agora algumas visões desconexas com quaisquer outros conceitos que existam por aí. Para relaxar o psiquismo, sem a intenção de determinar novas fórmulas, mas sim de explorar, no sentido mais ingênuo dessa palavra. Sim, explorar do ponto de vista da criança que ainda reside em nossos cérebros e mentes, pois dessa fase infantil, que todos passam sem exceção, é que colhemos os troncos mais robustos para nossa jornada adiante. E não pense que nestes termos o significado da tarefa que empreendemos se inclina para o simplório e fútil, muito pelo contrário, são nessas raízes profundas da infância que poderemos vasculhar a mais densa das condições mentais.
A visão de um mundo estático. O “não ser” corresponde-se com o mundo como se este fosse regido por leis sociais absolutas e permanentes. Inconsciente de que seu pensamento e sua ação modifica as leis do mundo, tendo estas como estáticas, pensa e age de um modo que influencia o meio a permanecer o mesmo sempre. É claro que individualmente a influência é pequena e não dificultaria a transformação do meio, contudo uma massa imensa de pessoas, inertes, pensando e agindo da mesma forma, estaticamente, com relação às leis sociais, acaba por dificultar as transições sócio econômicas capazes de atender às necessidades psicológicas de transformação da população. Instala-se então uma neurose coletiva, que tem por característica a autonegação coletiva das mudanças prementes. Deste modo o “não ser” que deveria ser evitado a todo custo, através da ação criativa individual e conjunta, torna-se, esse “não ser”, o padrão geral de comportamento, tanto social quanto mental. Esta inércia coletiva, onde a mínima mudança social necessita de uma aprovação burocrática consciencial, que demanda muito tempo, muito mais do que suporta o invólucro que contém as neuroses individuais e coletivas, se rompe numa série de abominações, a pior delas o recrudescimento sistemático ao nível da absoluta falta de uso do poder criativo, observado nos padrões rapidamente formados nas esferas onde escapam lampejos de criatividade, logo contidos e englobados na forma quadrática inversamente proporcional à necessidade de expressão.
Este entupimento das vias de expressão, pela sociedade altamente padronizada e policial, conduz os seres humanos, vítimas de sua própria incapacidade e nulidade, resultante da demência coletiva, à vergonhosa situação bizarra da acefolomania geral da população.
Aquele que, por meio de uma ação heróica de auto-empuxo vertical, perpendicular ao horizonte niilista da acefalia sociopática, consegue sair do âmbito visual do “não ser”, perambula solitário num mundo do “ser”, quase completamente isolado e à mercê dos ventos, assim como um bote em alto mar. Esta terrífica situação, que alguns conseguem prever de antemão, necessária para executar o auto-salvamento, impede-os na maioria das vezes o auto-empuxo heróico, logo tornando-os então vítimas conscientes mas inertes, duplamente acossadas por um mal-estar constante, confundido com depressão.
A bolha que prende o indivíduo, e por extensão toda a sociedade do “não ser”, é formada por camadas que vão da mais refinada, interior, para a mais grossa, exterior. Trespassar estas camadas levando consigo ainda um resto de sanidade mental é tarefa árdua realmente.
Para o “não ser” as coisas estão boas assim, e tudo bem. A razão da vida é simples e direta e suas capacidades mentais humanas são reduzidas ao máximo, sobrando somente o indispensável para comportar-se copiosamente igual ao que imediatamente vê ao redor. Não é à toa que a estupidez se propaga tão rápida e largamente. O “não ser” é comparável ao vácuo mental do inconsciente coletivo.
A última camada, a mais grossa e resistente, comporta uma retrovisão reflexiva de todas as outras camadas anteriores. Aquele que alcança esta camada e não a trespassa, percebe uma retrogradação interior e exterior, em seu mundo mental e social, numa espécie de retorno indesejado a um passado distante. O avanço nesta fase, de luta contra a ilusão degenerativa do “não ser”, é de suma importância, pois chegar a este ponto já é uma grande vitória, encontrando-se então, o ser, a um passo da vitória final sobre si mesmo. É tudo ou nada.
A criação é o archote e a espada de que dispõe o viajante na sua alucinante transformação mental. O acúmulo de cegueira dos milhares de indivíduos, desta sociedade ilusória decadente, pelejam contra o rompedor estímulo do ser. E a retomada das suas posses mentais, direitos inalienáveis que todo ser humano tem ao nascer, direito de “ser”, para além de tudo, de “ser” alguma coisa, de ser alguém, direito inalienável de ferir de morte o “não ser”, ocorre através de um verdadeiro massacre e derramamento de sangue interior, no campo psicológico.

A mente pode ser um sarcófago, guardião de conceitos estagnados. Como também um céu aberto para a navegação das suas ideias. Escolha!

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