Visão estática e visão dinâmica
Continuando nesta propedêutica
inicial, ressaltaremos agora algumas visões desconexas com quaisquer outros
conceitos que existam por aí. Para relaxar o psiquismo, sem a
intenção de determinar novas fórmulas, mas sim de explorar, no sentido mais
ingênuo dessa palavra. Sim, explorar do ponto de vista da criança que ainda
reside em nossos cérebros e mentes, pois dessa fase infantil, que todos passam
sem exceção, é que colhemos os troncos mais robustos para nossa jornada
adiante. E não pense que nestes termos o significado da tarefa que empreendemos
se inclina para o simplório e fútil, muito pelo contrário, são nessas raízes
profundas da infância que poderemos vasculhar a mais densa das condições
mentais.
A visão de um mundo estático. O “não
ser” corresponde-se com o mundo como se este fosse regido por leis sociais
absolutas e permanentes. Inconsciente de que seu pensamento e sua ação modifica
as leis do mundo, tendo estas como estáticas, pensa e age de um modo que
influencia o meio a permanecer o mesmo sempre. É claro que individualmente a
influência é pequena e não dificultaria a transformação do meio, contudo uma
massa imensa de pessoas, inertes, pensando e agindo da mesma forma,
estaticamente, com relação às leis sociais, acaba por dificultar as transições
sócio econômicas capazes de atender às necessidades psicológicas de
transformação da população. Instala-se então uma neurose coletiva, que tem por
característica a autonegação coletiva das mudanças prementes. Deste modo o “não
ser” que deveria ser evitado a todo custo, através da ação criativa individual
e conjunta, torna-se, esse “não ser”, o padrão geral de comportamento, tanto
social quanto mental. Esta inércia coletiva, onde a mínima mudança social
necessita de uma aprovação burocrática consciencial, que demanda muito tempo,
muito mais do que suporta o invólucro que contém as neuroses individuais e
coletivas, se rompe numa série de abominações, a pior delas o recrudescimento
sistemático ao nível da absoluta falta de uso do poder criativo, observado nos
padrões rapidamente formados nas esferas onde escapam lampejos de criatividade,
logo contidos e englobados na forma quadrática inversamente proporcional à
necessidade de expressão.
Este entupimento das vias de
expressão, pela sociedade altamente padronizada e policial, conduz os seres
humanos, vítimas de sua própria incapacidade e nulidade, resultante da demência
coletiva, à vergonhosa situação bizarra da acefolomania geral da população.
Aquele que, por meio de uma ação
heróica de auto-empuxo vertical, perpendicular ao horizonte niilista da
acefalia sociopática, consegue sair do âmbito visual do “não ser”, perambula
solitário num mundo do “ser”, quase completamente isolado e à mercê dos ventos,
assim como um bote em alto mar. Esta terrífica situação, que alguns conseguem
prever de antemão, necessária para executar o auto-salvamento, impede-os na
maioria das vezes o auto-empuxo heróico, logo tornando-os então vítimas
conscientes mas inertes, duplamente acossadas por um mal-estar constante, confundido
com depressão.
A bolha que prende o indivíduo, e por
extensão toda a sociedade do “não ser”, é formada por camadas que vão da mais refinada,
interior, para a mais grossa, exterior. Trespassar estas camadas levando
consigo ainda um resto de sanidade mental é tarefa árdua realmente.
Para o “não ser” as coisas estão boas
assim, e tudo bem. A razão da vida é simples e direta e suas capacidades
mentais humanas são reduzidas ao máximo, sobrando somente o indispensável para
comportar-se copiosamente igual ao que imediatamente vê ao redor. Não é à toa
que a estupidez se propaga tão rápida e largamente. O “não ser” é comparável ao
vácuo mental do inconsciente coletivo.
A última camada, a mais grossa e
resistente, comporta uma retrovisão reflexiva de todas as outras camadas
anteriores. Aquele que alcança esta camada e não a trespassa, percebe uma
retrogradação interior e exterior, em seu mundo mental e social, numa espécie
de retorno indesejado a um passado distante. O avanço nesta fase, de luta
contra a ilusão degenerativa do “não ser”, é de suma importância, pois chegar a
este ponto já é uma grande vitória, encontrando-se então, o ser, a um passo da
vitória final sobre si mesmo. É tudo ou nada.
A criação é o archote e a espada de
que dispõe o viajante na sua alucinante transformação mental. O acúmulo de
cegueira dos milhares de indivíduos, desta sociedade ilusória decadente,
pelejam contra o rompedor estímulo do ser. E a retomada das suas posses
mentais, direitos inalienáveis que todo ser humano tem ao nascer, direito de “ser”,
para além de tudo, de “ser” alguma coisa, de ser alguém, direito inalienável de
ferir de morte o “não ser”, ocorre através de um verdadeiro massacre e
derramamento de sangue interior, no campo psicológico.
A mente pode ser um sarcófago,
guardião de conceitos estagnados. Como também um céu aberto para a navegação
das suas ideias. Escolha!