domingo, 27 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 4: O método de nossa análise da consciência

A mente serena e completa é um estado de não preocupação, de clareza total. A lucidez dos sentimentos, em harmonia, sentida e vivida em instantes consecutivos, no ápice do êxtase consciente. Este é o local natural da mente?
A mente possui estados que sucedem-se no tempo. Da tranqüilidade passa à atribulação. Da concentração à distração. Da serenidade à raiva. As sucessões são infinitas, não param de ocorrer. Um estado mental é uma configuração característica. O quão cada um destes estados está ligado à situação externa é uma questão difícil e complexa de responder. Se as configurações mentais são totalmente dependentes do externo, então somos apenas máquinas. Mas será que existe uma vontade intencional capaz de estabelecer de uma vez por todas, independente do exterior, uma contínua configuração mental ótima? É isso que iremos explorar.
Todos sem exceção vivemos em nossos próprios mundos imaginários. A relação que temos com o próximo depende diretamente desse mundo imaginário. É de dentro de seu próprio mundo imaginário que uma pessoa envia suas mensagens ao próximo. A precípua condição de investigação a que nos propomos é entrelaçar essa relação individual com o mundo numa fusão atemporal. Dessa forma quebrando a rigidez lógica pessoal, que é parte de seu mundo imaginário particular, e adentrar numa condição mental absorta, apta a captar as mensagens que se cruzam entre o autor e o leitor, sem passar pelo crivo racional, indo diretamente ao subconsciente. Retirando dali sua essência para ser analisada. É natural que haja uma resistência a isso. Pode ocorrer uma transformação mental radical, afinal de contas estaremos adentrando o mais profundo do ser. E o melhor caminho para isso é o caminho direto.
Vale lembrar neste preâmbulo de considerações metafísicas, de fundo consciencial, que no decorrer da história recente de nossa cultura, a maioria das palavras foram acometidas de uma prolixidade inenarrável. O governo, entidades públicas e privadas, meios sociais e individuais, deturparam, cada qual a seu modo, o sentido prévio de inúmeras palavras e frases, para caber dentro de seus interesses passageiros e na maioria das vezes mesquinhos. Portanto, caro leitor, saiba de antemão que este texto deve ser lido com uma embuída atitude libertária, em primeiríssimo lugar, livre das pressões sociais. As palavras que utilizarei, de forma a barrar a má interpretação que possa ser ocasionada por essa contaminação, que aviltaria sobretudo o sentido mais profundo do que temos a considerar, não tem sentido em nenhum contexto além deste. Destacado este pormenor, gostaria, portanto, doravante me expressar com a mesma liberdade que o leitor deverá se firmar; na recepção clara e concisa da matéria em questão. Lembrando sempre que qualquer erro de interpretação é impossível, porquanto a meta não está na semântica nem na lógica, muito menos na coerência, e sim no aprofundamento mental.
Apesar da aparente confusão que o leitor possa se encontrar, em algum momento, perante o texto, tudo se esclarecerá à medida que vier uma concisão oriunda da compreensão global, que só ocorrerá no final da leitura. O leitor saberá distinguir exatamente onde o texto lhe afeta. E nesta afetação obterá a convicção de que está caminhando para algo importante a ser descoberto. O escritor, por sua vez, não é ninguém, não interessa quem ele é, nem o que faz, nem o que pretende, nada pode lhe interessar sobre o autor. Tem que haver um desvinculamento, um desprendimento do mundo social, à medida que os capítulos forem se sucedendo. Isso não é uma pré-condição, mas sim a idéia central da investigação. Este é o tema, o conteúdo e a forma.
Outra consideração, concomitante às anteriores, no entanto mais comum, em preâmbulos de tratados filosóficos, é a importância que o leitor deverá dar na ingestão dos capítulos iniciais, que realizam um apanhado geral de todos os principais termos prolixos deturpados, e sua explicação pormenorizada, que serão utilizadas nos capítulos ulteriores. Estas definições iniciais, vale ressaltar, sempre foram necessárias quando da apresentação de assuntos onde se utilizam termos já conhecidos com nova conotação. Esta abordagem pragmática inicial é necessária, sem a qual, em passagens posteriores, a sequência do raciocínio poderia se perder. Lembro, portanto, ao querido leitor, o cuidado que deve ter ao mergulhar no profundo texto que tenho a oferecer, munido com as salvaguardas dos capítulos iniciais, sem as quais se afogaria sem dúvida alguma.
A atitude de fato, que deveis ter, é a de um aventureiro intelectual que adentra uma densa floresta desconhecida, sob as frondosas sombras das árvores que umedecem e refrescam o ar, e criam uma atmosfera densa, às vezes temerosa. E pelas enviezadas vegetações que dificultam seu avanço, não poderá dispensar os úteis artefatos que ofereço, desde já, especialmente estas breves orientações, que são similares a um facão.
O sentimento, que em outros tempos fora pintado como sendo um coração, naquele seu aspecto onde se apresenta doce, sem perder o fio da razão; este é o estado emocional ideal para continuar, o leitor, a desvendar este preâmbulo e os conseguintes capítulos. Não há outra forma mais fidedigna de compreensão do que fazer o sentimento aliar-se ao raciocínio, numa conjunção única para alçar o voo libertário da consciência, tema deste tratado.
Ajuda também, ao leitor, saber que este trabalho é resultado de uma profunda compaixão pelo triste destino dos seres humanos. E que neste momento, é de um sofrimento inenarrável que retiro a força da qual faço uso para alinhavar estas páginas com amor. Apesar de parecer contraditório, a força intelectual correta que nos guia vem da dor, pois, conforme mais tarde tentarei mostrar, é desse tipo de sofrimento que resulta uma espécie de sadia seriedade, capaz de acolher os pensamentos e ordená-los numa sequência lógica, sem perder a compostura que outro sentimento qualquer poderia suscitar.
No geral, o direcionamento do texto é de esclarecimento. Sobre a vida mental e seus princípios essenciais que a distingue da morte mental. E de agora em diante me refiro a tal morte mental, que disponho como meio de contraponto a tudo que é belo e radiante, como sendo o “não ser”. E este é apenas um diminuto exemplo preparatório do referido alerta, exposto anteriormente, quando atento sobre a mudança de sentido que faço, de palavras e termos conhecidos, para enfatizar as profundas idéias que pretendemos alçar.

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