A mente serena e completa é um estado de
não preocupação, de clareza total. A lucidez dos sentimentos, em harmonia,
sentida e vivida em instantes consecutivos, no ápice do êxtase consciente. Este
é o local natural da mente?
A mente possui estados que sucedem-se
no tempo. Da tranqüilidade passa à atribulação. Da concentração à distração. Da
serenidade à raiva. As sucessões são infinitas, não param de ocorrer. Um estado
mental é uma configuração característica. O quão cada um destes estados está
ligado à situação externa é uma questão difícil e complexa de responder. Se as
configurações mentais são totalmente dependentes do externo, então somos apenas
máquinas. Mas será que existe uma vontade intencional capaz de estabelecer de
uma vez por todas, independente do exterior, uma contínua configuração mental
ótima? É isso que iremos explorar.
Todos sem exceção vivemos em nossos
próprios mundos imaginários. A relação que temos com o próximo depende
diretamente desse mundo imaginário. É de dentro de seu próprio mundo imaginário
que uma pessoa envia suas mensagens ao próximo. A precípua condição de
investigação a que nos propomos é entrelaçar essa relação individual com o
mundo numa fusão atemporal. Dessa forma quebrando a rigidez lógica pessoal, que
é parte de seu mundo imaginário particular, e adentrar numa condição mental absorta,
apta a captar as mensagens que se cruzam entre o autor e o leitor, sem passar
pelo crivo racional, indo diretamente ao subconsciente. Retirando dali sua
essência para ser analisada. É natural que haja uma resistência a isso. Pode ocorrer
uma transformação mental radical, afinal de contas estaremos adentrando o mais
profundo do ser. E o melhor caminho para isso é o caminho direto.
Vale lembrar neste preâmbulo de
considerações metafísicas, de fundo consciencial, que no decorrer da história
recente de nossa cultura, a maioria das palavras foram acometidas de uma prolixidade
inenarrável. O governo, entidades públicas e privadas, meios sociais e
individuais, deturparam, cada qual a seu modo, o sentido prévio de inúmeras
palavras e frases, para caber dentro de seus interesses passageiros e na
maioria das vezes mesquinhos. Portanto, caro leitor, saiba de antemão que este texto
deve ser lido com uma embuída atitude libertária, em primeiríssimo lugar, livre
das pressões sociais. As palavras que utilizarei, de forma a barrar a má
interpretação que possa ser ocasionada por essa contaminação, que aviltaria
sobretudo o sentido mais profundo do que temos a considerar, não tem sentido em
nenhum contexto além deste. Destacado este pormenor, gostaria, portanto,
doravante me expressar com a mesma liberdade que o leitor deverá se firmar; na
recepção clara e concisa da matéria em questão. Lembrando sempre que qualquer
erro de interpretação é impossível, porquanto a meta não está na semântica nem
na lógica, muito menos na coerência, e sim no aprofundamento mental.
Apesar da aparente confusão que o
leitor possa se encontrar, em algum momento, perante o texto, tudo se
esclarecerá à medida que vier uma concisão oriunda da compreensão global, que
só ocorrerá no final da leitura. O leitor saberá distinguir exatamente onde o
texto lhe afeta. E nesta afetação obterá a convicção de que está caminhando
para algo importante a ser descoberto. O escritor, por sua vez, não é ninguém,
não interessa quem ele é, nem o que faz, nem o que pretende, nada pode lhe
interessar sobre o autor. Tem que haver um desvinculamento, um desprendimento
do mundo social, à medida que os capítulos forem se sucedendo. Isso não é uma pré-condição,
mas sim a idéia central da investigação. Este é o tema, o conteúdo e a forma.
Outra consideração, concomitante às
anteriores, no entanto mais comum, em preâmbulos de tratados filosóficos, é a
importância que o leitor deverá dar na ingestão dos capítulos iniciais, que
realizam um apanhado geral de todos os principais termos prolixos deturpados, e
sua explicação pormenorizada, que serão utilizadas nos capítulos ulteriores.
Estas definições iniciais, vale ressaltar, sempre foram necessárias quando da
apresentação de assuntos onde se utilizam termos já conhecidos com nova
conotação. Esta abordagem pragmática inicial é necessária, sem a qual, em
passagens posteriores, a sequência do raciocínio poderia se perder. Lembro,
portanto, ao querido leitor, o cuidado que deve ter ao mergulhar no profundo
texto que tenho a oferecer, munido com as salvaguardas dos capítulos iniciais,
sem as quais se afogaria sem dúvida alguma.
A atitude de fato, que deveis ter, é a
de um aventureiro intelectual que adentra uma densa floresta desconhecida, sob as
frondosas sombras das árvores que umedecem e refrescam o ar, e criam uma
atmosfera densa, às vezes temerosa. E pelas enviezadas vegetações que
dificultam seu avanço, não poderá dispensar os úteis artefatos que ofereço,
desde já, especialmente estas breves orientações, que são similares a um facão.
O sentimento, que em outros tempos
fora pintado como sendo um coração, naquele seu aspecto onde se apresenta doce,
sem perder o fio da razão; este é o estado emocional ideal para continuar, o
leitor, a desvendar este preâmbulo e os conseguintes capítulos. Não há outra
forma mais fidedigna de compreensão do que fazer o sentimento aliar-se ao
raciocínio, numa conjunção única para alçar o voo libertário da consciência,
tema deste tratado.
Ajuda também, ao leitor, saber que
este trabalho é resultado de uma profunda compaixão pelo triste destino dos
seres humanos. E que neste momento, é de um sofrimento inenarrável que retiro a
força da qual faço uso para alinhavar estas páginas com amor. Apesar de parecer
contraditório, a força intelectual correta que nos guia vem da dor, pois,
conforme mais tarde tentarei mostrar, é desse tipo de sofrimento que resulta
uma espécie de sadia seriedade, capaz de acolher os pensamentos e ordená-los
numa sequência lógica, sem perder a compostura que outro sentimento qualquer
poderia suscitar.
No geral, o direcionamento do texto é de
esclarecimento. Sobre a vida mental e seus princípios essenciais que a
distingue da morte mental. E de agora em diante me refiro a tal morte mental,
que disponho como meio de contraponto a tudo que é belo e radiante, como sendo
o “não ser”. E este é apenas um diminuto exemplo preparatório do referido
alerta, exposto anteriormente, quando atento sobre a mudança de sentido que
faço, de palavras e termos conhecidos, para enfatizar as profundas idéias que
pretendemos alçar.
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