Considerações iniciais
Este ensaio é um convite à observação do que
ocorre na mente do ser humano. A única forma sincera de realizarmos esta
observação é utilizar nossa própria mente como objeto de estudo. O ponto de
partida é a simples e direta observação dos próprios pensamentos. No entanto, observar
o fluxo e o funcionamento do próprio pensamento não é tarefa fácil. Existem
duas grandes barreiras. Uma delas é a forte identificação, consciente e
inconsciente, que temos, de que alguns pensamentos são o “eu”. Acreditamos,
seja por motivos culturais ou outros, que existe um “eu” e pronto. Estamos
acostumados com a ideia de um “eu” dentro do corpo, e deduzimos que esse “eu” é
a fonte dos pensamentos. Mas isso que identificamos como sendo o “eu” pode
muito bem ser apenas mais um dos muitos pensamentos que o cérebro gera espontaneamente.
Esse “eu” pode ser simplesmente uma espécie de pensamento que se manifesta em
determinados momentos, advogando ser ele o próprio “eu”. A segunda dificuldade
que temos em observar os próprios pensamentos é relativa ao fato de não
conseguirmos pensar claramente dois pensamentos ao mesmo tempo. Devido a este
fato, quando a partir do estado de observação de meu próprio pensamento, tento codificar
essa observação em palavras, aquele pensamento que estava sendo observado
desaparece, dando lugar a outro pensamento que surge, e ocupa-se da codificação
em palavras daquilo que havia observado. Neste caso cria-se um paradoxo:
podemos experienciar a observação do pensamento, mas no instante que tentamos codificar
em palavras o que foi observado, quem codifica é outro pensamento, que, portanto,
deveria ser também alvo de observação; então precisaríamos de outro para
observar este novo pensamento e assim sucessivamente “ad infinitum”. Em outras palavras, o pensamento que codifica a
observação direta, interfere naquele que está sendo observado. Então a análise
dos próprios pensamentos, dessa forma direta, não funciona como a desejamos; pois
o observador se torna irremediavelmente o objeto observado. Diante destas duas
e de outras dificuldades semelhantes, neste estudo, que é um estudo de si
mesmo, provavelmente precisaremos lançar mão de alguns artifícios.
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