quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 1: O método de nossa análise da consciência

Considerações iniciais

Este ensaio é um convite à observação do que ocorre na mente do ser humano. A única forma sincera de realizarmos esta observação é utilizar nossa própria mente como objeto de estudo. O ponto de partida é a simples e direta observação dos próprios pensamentos. No entanto, observar o fluxo e o funcionamento do próprio pensamento não é tarefa fácil. Existem duas grandes barreiras. Uma delas é a forte identificação, consciente e inconsciente, que temos, de que alguns pensamentos são o “eu”. Acreditamos, seja por motivos culturais ou outros, que existe um “eu” e pronto. Estamos acostumados com a ideia de um “eu” dentro do corpo, e deduzimos que esse “eu” é a fonte dos pensamentos. Mas isso que identificamos como sendo o “eu” pode muito bem ser apenas mais um dos muitos pensamentos que o cérebro gera espontaneamente. Esse “eu” pode ser simplesmente uma espécie de pensamento que se manifesta em determinados momentos, advogando ser ele o próprio “eu”. A segunda dificuldade que temos em observar os próprios pensamentos é relativa ao fato de não conseguirmos pensar claramente dois pensamentos ao mesmo tempo. Devido a este fato, quando a partir do estado de observação de meu próprio pensamento, tento codificar essa observação em palavras, aquele pensamento que estava sendo observado desaparece, dando lugar a outro pensamento que surge, e ocupa-se da codificação em palavras daquilo que havia observado. Neste caso cria-se um paradoxo: podemos experienciar a observação do pensamento, mas no instante que tentamos codificar em palavras o que foi observado, quem codifica é outro pensamento, que, portanto, deveria ser também alvo de observação; então precisaríamos de outro para observar este novo pensamento e assim sucessivamente “ad infinitum”. Em outras palavras, o pensamento que codifica a observação direta, interfere naquele que está sendo observado. Então a análise dos próprios pensamentos, dessa forma direta, não funciona como a desejamos; pois o observador se torna irremediavelmente o objeto observado. Diante destas duas e de outras dificuldades semelhantes, neste estudo, que é um estudo de si mesmo, provavelmente precisaremos lançar mão de alguns artifícios.

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