sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 2: O método de nossa análise da consciência

Vale a pena deixar bem claro já de início: um estudo da mente, pela própria mente, exige um desprendimento completo das amarras que possam limitar a auto-observação. A abordagem deste assunto necessita de total desenvoltura, que se perderia, de outro modo, em meio a preconcebidos enlaces conjecturais inoportunos. Os processos mentais são sutis e delicados, e somente uma investigação absolutamente livre e imparcial pode mirar o âmago da questão, quiçá atingi-lo.
 Além disso, a aventura de descortinar os meandros dos próprios pensamentos depende de uma forte imaginação, que é a única força livre o suficiente capaz de transcender o paradoxo citado no início, e vasculhar as profundezas da mente sem emaranhar-se dentro dela. A característica mais notória da imaginação é justamente a liberdade. E da mesma forma se limitações à imaginação forem impostas de antemão, por meio de conjunturas morais, restrições psicológicas ou formatações técnicas, todo o esforço será em vão. O que torna a imaginação apta a essa aventura introspectiva é sua capacidade inerente em dar saltos dimensionais e tornar possível o impossível. Somente a imaginação pode trabalhar além do campo empírico restrito e ir fundo o suficiente para encontrar o alvo, segui-lo, e trazê-lo à tona, onde poderemos dissecá-lo.
A mente como vimos a dizer, não é um objeto inanimado com o qual podemos realizar observações sem modificar seu conteúdo. A mente parece antes de tudo ser o próprio ser, portanto não há como investigá-la por meio de divisões ou mensurar sua extensão, sem ocasionar uma grave perda de seu sentido global. A abordagem que proponho é acompanhar o texto submergindo gradualmente, refletindo-o dentro de si mesmo, despido de todo conceito e pré-conceito, ou seja, nu.
A sutileza do tema exige um novo padrão de leitura, diferente do normalmente praticado. Isso pode ser feito através de uma correta concentração, necessária para que a consciência adquira uma ótima configuração ao tipo exigido de interpretação, realizando uma imagem externa e interna de sua própria ação em movimento.
Em qualquer leitura, ruídos exteriores ou interiores podem relaxar a atenção, provocando certa confusão que contaminaria a linha de interpretação correta, tornando a leitura ou distorcida ou superficial demais. Para evitar tais empecilhos, como subterfúgio prático, utilizo-me de metáforas por todo o texto, para despertar o leitor, anulando os ruídos que provocam a desatenção. Criando assim uma espécie de exagero aceitável. É necessário aceitar os absurdos alegóricos, que são apelos de concentração à desatenção decorrente das interferências externas. Então, desde já estabeleceremos que o “absurdo” faz parte do conteúdo textual, e considerando que a sua reflexão precisa acompanhar a minha, aceitando este “absurdo”, seguiremos adiante. Com esta predisposição poderemos então conectar uma via possível de entendimento claro e recíproco. No fim, baseamos a investigação na confiança mútua, independente do recurso linguístico utilizado.
Essa confiança é necessária, pois o padrão de acompanhamento mental que usarei é de todo incongruente a princípio. E somente mais tarde se lhe revelará em todo seu sentido. Tomamos por pacto, desde agora, que seguirei minha atividade mental e você terá de seguir a sua, enquanto conversamos, imergindo gradualmente no texto e em seus próprios pensamentos, derivados do meu.

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