Vale a pena deixar bem claro já de
início: um estudo da mente, pela própria mente, exige um desprendimento
completo das amarras que possam limitar a auto-observação. A abordagem deste
assunto necessita de total desenvoltura, que se perderia, de outro modo, em
meio a preconcebidos enlaces conjecturais inoportunos. Os processos mentais são
sutis e delicados, e somente uma investigação absolutamente livre e imparcial pode
mirar o âmago da questão, quiçá atingi-lo.
Além disso, a aventura de descortinar os
meandros dos próprios pensamentos depende de uma forte imaginação, que é a
única força livre o suficiente capaz de transcender o paradoxo citado no início,
e vasculhar as profundezas da mente sem emaranhar-se dentro dela. A
característica mais notória da imaginação é justamente a liberdade. E da mesma
forma se limitações à imaginação forem impostas de antemão, por meio de conjunturas
morais, restrições psicológicas ou formatações técnicas, todo o esforço será em
vão. O que torna a imaginação apta a essa aventura introspectiva é sua
capacidade inerente em dar saltos dimensionais e tornar possível o impossível.
Somente a imaginação pode trabalhar além do campo empírico restrito e ir fundo
o suficiente para encontrar o alvo, segui-lo, e trazê-lo à tona, onde poderemos
dissecá-lo.
A mente como vimos a dizer, não é um
objeto inanimado com o qual podemos realizar observações sem modificar seu
conteúdo. A mente parece antes de tudo ser o próprio ser, portanto não há como
investigá-la por meio de divisões ou mensurar sua extensão, sem ocasionar uma
grave perda de seu sentido global. A abordagem que proponho é acompanhar o
texto submergindo gradualmente, refletindo-o dentro de si mesmo, despido de
todo conceito e pré-conceito, ou seja, nu.
A sutileza do tema exige um novo padrão
de leitura, diferente do normalmente praticado. Isso pode ser feito através de
uma correta concentração, necessária para que a consciência adquira uma ótima configuração
ao tipo exigido de interpretação, realizando uma imagem externa e interna de
sua própria ação em movimento.
Em qualquer leitura, ruídos exteriores
ou interiores podem relaxar a atenção, provocando certa confusão que contaminaria
a linha de interpretação correta, tornando a leitura ou distorcida ou
superficial demais. Para evitar tais empecilhos, como subterfúgio prático,
utilizo-me de metáforas por todo o texto, para despertar o leitor, anulando os
ruídos que provocam a desatenção. Criando assim uma espécie de exagero
aceitável. É necessário aceitar os absurdos alegóricos, que são apelos de
concentração à desatenção decorrente das interferências externas. Então, desde
já estabeleceremos que o “absurdo” faz parte do conteúdo textual, e
considerando que a sua reflexão precisa acompanhar a minha, aceitando este
“absurdo”, seguiremos adiante. Com esta predisposição poderemos então conectar
uma via possível de entendimento claro e recíproco. No fim, baseamos a
investigação na confiança mútua, independente do recurso linguístico utilizado.
Essa confiança é necessária, pois o
padrão de acompanhamento mental que usarei é de todo incongruente a princípio. E
somente mais tarde se lhe revelará em todo seu sentido. Tomamos por pacto,
desde agora, que seguirei minha atividade mental e você terá de seguir a sua,
enquanto conversamos, imergindo gradualmente no texto e em seus próprios
pensamentos, derivados do meu.
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