terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mirabolante Kant - parte 3 - De Prima

Primeiros Princípios (De Prima)

Saiba leitor que filosofia é coisa séria. Os princípios de qualquer tratado filosofístico é sempre recheado de definições. A mente memórica do estudante precisa ficar bastante atenta e mneumonizar o melhor possível os primeiros ensinamentos, caso contrário todo o resto não servirá nem de patê pra porco. Preste, portanto, total atenção e memorize este palavróio vocabular inicial, pois ele será usado constantemente por todo o derramamento sucedâneo deste grandioso compêndio.
A preleorgástica compreensão iniciática de Kant diz respeito a dois temerosos conceitos: "a priori" e "a posteriori". Para explicar estes conceitos, o maioral dos maiorais, Ele, dedica várias inergúmicas páginas iniciais de seu obtsângulo livrão. Vêmo-lo então por quê!
O conhecimento, diz Ele, só pode vir da experiência. Tudo o que conhecemos primeiro passou pelas impressões do sentido para depois tornar-se conhecido. Até aí não há nenhuma novidade além do que Hume já expusera anteriormente. Os empiristas ingleses passaram a vida toda dizendo isto. A diferença é que nosso sapeca Kant, logo após às suas anteriores observações, propõe que apesar do conhecimento vir da experiência, ainda assim resta um tipo de conhecimento que não vem da experiência. Esse tipo de revorteio contradiz o que ele mesmo diz, e assim abre um vácuo mental no estudante, logo de cara, deixando-o aturdido para num golpe de surpresa, preparar seu espírito para o entróito de seu dualismo quase maniqueísta nas definições dos conceitos de "a priori" e "a posteriori".
Caro leitor, "a priori" é a estrutura mental formada de prévios conhecimentos, que lá estavam antes de qualquer outro conhecimento abduzir teus impávidos neurônios. À época de Kant não se conheciam os neurônios, portanto ele inventa todo um mirabolante processo de diarréia verbal pra afirmar que existe uma estrutural mental anterior e que sustenta os outros conhecimentos. Essa estrutura a que ele se refere por conhecimento "a priori", sabemos hoje, que se trata do arranjo neuronal da massa encefálica. Apegando-se a surubáticas explicações para dar peso filosófico a seus argumentos, Kant, apesar de tudo, acerta na mosca. Sim, existe de fato "uma" conhecimento subjacente a todos os outros. E, realmente, podemos chamar isso de conhecimento "a priori". Dá-lhe Kant.
Kant utiliza-se de alguns exemplos em seu devaneio laboral introdutório. As leis matemáticas para ele são prova de que algo é conhecido antes da experiência. Kant acredita que a própria estrutura mental, a priori, é que dá garantia às leis matemáticas, pois sendo a estrutura mental - conhecimento a priori - o processo intrínseco pelo qual pensamos, esta estrutura força a própria realidade conhecida, do modo que a conhecemos, a ser do jeito que é. Para Ele as leis matemáticas não são um produto de milhares de experiências que pela repetição lhe dão integridade, pois se assim fosse, como queria Hume, estas leis não poderiam ser exatas e absolutas como são. Por outro lado seria impossível demonstrar qualquer uma das leis matemáticas através de um método totalmente empírico, pois teríamos que experimentar estas leis em todas as suas possibilidades aplicáveis, sem exceção. Sabemos que não é possível pegar todos e quaisquer dois objetos existentes, e dispondo-os juntos demonstrar que todos um mais um são dois. Ou seja, empiricamente é impossível demonstrar que as leis matemáticas são leis advindas da experiência empírica. Diz ele, então, que tem que haver um conhecimento a priori.
Outro exemplo, similar ao anterior, com o qual Kant procura demonstrar a validade de seu argumento a favor do "a priori", é relativo à máxima de que "toda consequência tem uma causa". No campo fenomênico tudo que se apresenta possui uma causa. Isso não pode, segundo Ele, ser simplesmente uma indução obtida por inúmeras experiências. A noção de causa e consequência é algo que já estava na cabeça quando nascemos, e que nos permite conceber a realidade.
Kant além de apresentar os conceitos de "a priori" e "a posteriori", discorre sobre diferentes "a priori"; no fundo ele quer apenas reforçar a ideia de que "a priori" tem que ser puramente "a priori". O "a priori" não pode derivar de nenhuma forma de conhecimento "a posteriori". Nesse intento ele propõe que para ser "a priori" o conhecimento tem que ser necessário e também absolutamente universal. Sendo que basta provar uma destas condições para demonstrar automaticamente a outra. Mas nós vamos pular estes pormenores assim como várias outras partes desta magnífica obra, caso contrário estenderíamos nossa singular apresentação à mesma ou maior quantidade de páginas que à d'Ele, e isso foge às nossas pretensões. Fiquemos apenas com o supra sumo!
Após larga e pormenorizada explicação de "a priori" e de "a posteriori" - aliás, "a posteriori" é todo conhecimento que provém da experiência sensível - o magnânimo Lord Kant entra nos conceitos de "juízo analítico" e "juízo sintético". Mas antes, vale a pena diagramar algumas poucas e boas observações.
A filosofia está muito acima da ciência, assim como também é superior a todas as outras metodologias de pensar. Filosofia é a forma, por concepção, mais livre de pensar. Toda forma de pensar é uma forma filosófica de pensar. Existem formas medíocres de pensar, estas são as filosofias baratas. Existem formas mais nobres, às quais nosso amigo Kant e outros ensejaram fazer parte. Até mesmo a religião é uma filosofia, pois é um modo de pensar, apesar de medíocre. Na época de Kant, a ciência não era mais do que uma sugestão aristotélica de estudo. Hoje, o modelo científico é um representante bem sucedido de uma filosofia originalmente boa e produtiva. A vaidade, no entanto, pariu motes de doutores em ciência que se acham donos da íris quando na verdade possuem apenas uma visão espectroscopicamente unilateral dos fenômenos e da vida. Kant, representante daquela era de metafísicos, um tanto quanto desprezados pela moderna visão do mundo, apresentou um trabalho que tinha como objetivo estabelecer um novo sistema de certezas, autêntico e preciso, sobre a capacidade racional do ser humano. Assim como todas as filosofias - derivadas da liberdade filosófica - são apenas parte do conjunto filosófico, o sistema de Kant também apresenta seus limites. Mas isso não invalida seus argumentos, e mais que isso, dentro da bolha Kantiana sua tese não só é válida como irrepreensível.
Imagine algo que sai de dentro de si mesmo. Assim como um pinto sai do ovo. Isso é juízo analítico. Contrapondo-se ao juízo analítico temos o juízo sintético. Temos um juízo sintético quando de uma expressão chegamos à outra que não estava já contida na anterior. Quando dizemos, por exemplo, que o universo é infinito, estamos frente a um juízo analítico, pois a noção de infinito já estava incutida na noção de universo. 
A dificuldade começa quando Kant tenta demonstrar a existência de juízos sintéticos a priori. Em outras palavras, diz ele, que o arcabouço do conhecimento, o invólucro do conteúdo sapiêntico, pode a priori ajuizar sobre algo que não estava lá dentro dele. É o mesmo que dizer que de um saco vazio podemos tirar um biscoito. Sem claro, distorcer a lógica transcendental geral.
Imaginamos que existe a natureza e que foi dela que viemos. Mas a natureza é na verdade uma representação daquilo que estamos aptos a perceber. A natureza ela mesma, assim como qualquer objeto dela, não são conhecíveis em si mesmos. O que nos é permitido conhecer precisa passar por um filtro dos sentidos. Não estamos aptos a perceber a realidade como ela é mesmo. Somente a vemos através de uma representação mediada pela nossa capacidade de percebê-la. De um lado temos o subjetivo e de outro a realidade. E a realidade não se apresenta por si mesma, mas sim pela mediação subjetiva.
Esse ente que percebe, que chamamos de eu, consegue representar particulares do todo que é percebido. Mas o eu nada mais é que uma apercepção, pois ele não consegue perceber a si mesmo a não ser também através de uma representação. A apercepção transcendental provê um eu que percebe, e essa apercepção, ela mesma é imperceptível.

Mirabolante Kant - parte 2 - Dedução biográfica

Curta biografia dedutória de Kant

Antes de entrarmos na filosofia propriamente dita, deste fantasma gigante da literatura filosófica, passemos rapidamente em revista sua alegórica vidinha, conhecida e exemplarmente alardeada, em todas suas biografias, como sendo a mais chata de todas as vidas. 
Nasceu, viveu e morreu na cidadezinha de Nuremberg, noroeste do império austro-húngaro, filho de um missionário sapateiro com uma mulherzinha desprezível. Como todo bom samaritano missionário, seu pai queria que o filho fosse pastor. Kant relutou calado. Foi embromando seu pai até conseguir concluir seus estudos na tão afamada universidade de Nuremberg. Aluno brilhante, mente astuta, angariou partido da cúria acadêmica e assim conseguiu, por mérito cerebral e recomendações eclesiásticas, alcançar a catedrática.  Tornou-se enfim professor, título que lhe deu acesso às altas nobrezas reinantes, principalmente por puxar o saco dos nascentes burgueses que naquela época pré-iluminista batiam de frente com os já saturados poderes da igreja universal. Dos metafísicos de sua época, ele, Spinoza e pouquíssimos outros tinham coragem de escrever um tratado que não fosse de cabo a rabo recheado do tema deístico. Pode-se dizer que ele conseguiu subir no muro e lá ficou.
Kant adulto, em todos seus miseráveis dias, saia de sua casa túmulo e passeava dando um passeio, exatamente às 16:00, quando então os vizinhos e transeuntes aproveitavam e acertavam seus relógios. 
Nunca casou nunca trepou. Por aí você já começa a perceber o tamanho do problema.
Resolvendo então adentrar heroicamente um tema praticamente tabu, elaborou em estilo pomposo, ao gosto dos príncipes e reis da nobreza claudicante, o magnífico e insofismável peso livro "Crítica da Razão Pura".
A partir desta publicação adentrou o estreito círculo dos aclamados e assim chamados "Filósofos". Mesmo em sua época já conheceu o sucesso literário, o que nem sempre ocorre nesse tipo de obra encriptografada, por demais enigmática para as mentes simples dos espíritos cidadânicos comuns, Nasci Simplex Morriris Simplex. Recebeu enfim, da mão de nobres senhores de terras, o titulaço, desejadíssimo de todos catedráticos, de Lord.
Então correligionários leitores dessa aventuróica panaceia mental, preparem-se, chega de prolegômenos, o pau vai cair a folha. Nas próximas páginas destrincharemos, degustaremos e evacuaremos o que esse mefistofélico Lord Kant escreveu, Bona Petit.

Mirabolante Kant - parte 1 - Prefácio

Prefácio

Engraçado como sou tão burro. Quando resolvi estudar Kant, depois de bastante leitura, fui corajosamente testar minhas novas sabedorias com outros estudantes, num chat. Descobri que ali perambulavam diálogos por demais sofisticados sobre o tema; muito além de minha ignorância transcendental. Os chatíssimos apresentavam tanta desenvoltura àqueles rudes conceitos que com tanto esforço eu pelejava em compreender. Perdi pernoites e dias dependurado em tão granítica obra da razão pura, tentando lascar ao menos um tantico de sabedorência, e lá estavam aqueles jovens como se zombassem da minha burrice, jogando arrevelia e naturalmente, juízos sintéticos e analíticos, pra lá e pra cá, com presteza e referências, dando um verdadeiro baile nas minhas pretensões de filosofista.
Se burro já era, mais aburrecido fiquei. Pra não dizer abestalhado pateticamente apático na paripateutica perda de tempo. Tudo em vão. Voltei acabrunhado pro meu escuro brunhão. Filosofei: tem jeito não, minha burrice é infinita.
Mas peraí! Uma coisa notei, no meio daquelas finíssimas conclusões e desconclusões dos chatíssimos, relembrei-me de pequeno quando ficava brigando com meus irmãos: é, num é, é, num é... Esse lembrancil me atinou que tudo aquilo poderia ser apenas conversa de criancicius decoratius. Então arrevoltei-me e fui ter novamente com Kant, é claro, não sem antes tomar meu sucrilhos.
Foi então que adentrei-me vigorosamente nos escritos de Kant como se fosse o próprio Hércules trespassando Vênus. Então eu vi. Encontrei o sentido mais profundo da titânica obra. Nos recôndidos da minha mente, regozijava-me em turbilhões ter encontrado o fio da meada, perdida na pororoca dos ludibriados e endiabrados doutores da filosofia; e dessa vesga entreolhada, destrambelhei o tecido dos orgulhosos e renomados apedeutas dos mais longínquos frontispíceos limites da arrogância acadêmica.
Sim, eu encontrei a solução da equação. Tuti veritatis.
Estava lá, brilhando na abóboda celeste do meu crânio. E eu babando de estupefação.
Finalmente encontrei o sol da meia noite. A luz que não padece. O raio lamparínico da iluminação nirvanóica. O tudo do nada. O nada de nada.
Então, depois de tão nevrálgica compreensão, esfuziante e mirabólica, passei finalmente ao largo da burrice. E agora, exporei com todo prazer, nas vindouras páginas, pasmem, a substância da quintessência filosófica Kantiana. Aleluia!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 5: O método de nossa análise da consciência

      Visão estática e visão dinâmica

Continuando nesta propedêutica inicial, ressaltaremos agora algumas visões desconexas com quaisquer outros conceitos que existam por aí. Para relaxar o psiquismo, sem a intenção de determinar novas fórmulas, mas sim de explorar, no sentido mais ingênuo dessa palavra. Sim, explorar do ponto de vista da criança que ainda reside em nossos cérebros e mentes, pois dessa fase infantil, que todos passam sem exceção, é que colhemos os troncos mais robustos para nossa jornada adiante. E não pense que nestes termos o significado da tarefa que empreendemos se inclina para o simplório e fútil, muito pelo contrário, são nessas raízes profundas da infância que poderemos vasculhar a mais densa das condições mentais.
A visão de um mundo estático. O “não ser” corresponde-se com o mundo como se este fosse regido por leis sociais absolutas e permanentes. Inconsciente de que seu pensamento e sua ação modifica as leis do mundo, tendo estas como estáticas, pensa e age de um modo que influencia o meio a permanecer o mesmo sempre. É claro que individualmente a influência é pequena e não dificultaria a transformação do meio, contudo uma massa imensa de pessoas, inertes, pensando e agindo da mesma forma, estaticamente, com relação às leis sociais, acaba por dificultar as transições sócio econômicas capazes de atender às necessidades psicológicas de transformação da população. Instala-se então uma neurose coletiva, que tem por característica a autonegação coletiva das mudanças prementes. Deste modo o “não ser” que deveria ser evitado a todo custo, através da ação criativa individual e conjunta, torna-se, esse “não ser”, o padrão geral de comportamento, tanto social quanto mental. Esta inércia coletiva, onde a mínima mudança social necessita de uma aprovação burocrática consciencial, que demanda muito tempo, muito mais do que suporta o invólucro que contém as neuroses individuais e coletivas, se rompe numa série de abominações, a pior delas o recrudescimento sistemático ao nível da absoluta falta de uso do poder criativo, observado nos padrões rapidamente formados nas esferas onde escapam lampejos de criatividade, logo contidos e englobados na forma quadrática inversamente proporcional à necessidade de expressão.
Este entupimento das vias de expressão, pela sociedade altamente padronizada e policial, conduz os seres humanos, vítimas de sua própria incapacidade e nulidade, resultante da demência coletiva, à vergonhosa situação bizarra da acefolomania geral da população.
Aquele que, por meio de uma ação heróica de auto-empuxo vertical, perpendicular ao horizonte niilista da acefalia sociopática, consegue sair do âmbito visual do “não ser”, perambula solitário num mundo do “ser”, quase completamente isolado e à mercê dos ventos, assim como um bote em alto mar. Esta terrífica situação, que alguns conseguem prever de antemão, necessária para executar o auto-salvamento, impede-os na maioria das vezes o auto-empuxo heróico, logo tornando-os então vítimas conscientes mas inertes, duplamente acossadas por um mal-estar constante, confundido com depressão.
A bolha que prende o indivíduo, e por extensão toda a sociedade do “não ser”, é formada por camadas que vão da mais refinada, interior, para a mais grossa, exterior. Trespassar estas camadas levando consigo ainda um resto de sanidade mental é tarefa árdua realmente.
Para o “não ser” as coisas estão boas assim, e tudo bem. A razão da vida é simples e direta e suas capacidades mentais humanas são reduzidas ao máximo, sobrando somente o indispensável para comportar-se copiosamente igual ao que imediatamente vê ao redor. Não é à toa que a estupidez se propaga tão rápida e largamente. O “não ser” é comparável ao vácuo mental do inconsciente coletivo.
A última camada, a mais grossa e resistente, comporta uma retrovisão reflexiva de todas as outras camadas anteriores. Aquele que alcança esta camada e não a trespassa, percebe uma retrogradação interior e exterior, em seu mundo mental e social, numa espécie de retorno indesejado a um passado distante. O avanço nesta fase, de luta contra a ilusão degenerativa do “não ser”, é de suma importância, pois chegar a este ponto já é uma grande vitória, encontrando-se então, o ser, a um passo da vitória final sobre si mesmo. É tudo ou nada.
A criação é o archote e a espada de que dispõe o viajante na sua alucinante transformação mental. O acúmulo de cegueira dos milhares de indivíduos, desta sociedade ilusória decadente, pelejam contra o rompedor estímulo do ser. E a retomada das suas posses mentais, direitos inalienáveis que todo ser humano tem ao nascer, direito de “ser”, para além de tudo, de “ser” alguma coisa, de ser alguém, direito inalienável de ferir de morte o “não ser”, ocorre através de um verdadeiro massacre e derramamento de sangue interior, no campo psicológico.

A mente pode ser um sarcófago, guardião de conceitos estagnados. Como também um céu aberto para a navegação das suas ideias. Escolha!

domingo, 27 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 4: O método de nossa análise da consciência

A mente serena e completa é um estado de não preocupação, de clareza total. A lucidez dos sentimentos, em harmonia, sentida e vivida em instantes consecutivos, no ápice do êxtase consciente. Este é o local natural da mente?
A mente possui estados que sucedem-se no tempo. Da tranqüilidade passa à atribulação. Da concentração à distração. Da serenidade à raiva. As sucessões são infinitas, não param de ocorrer. Um estado mental é uma configuração característica. O quão cada um destes estados está ligado à situação externa é uma questão difícil e complexa de responder. Se as configurações mentais são totalmente dependentes do externo, então somos apenas máquinas. Mas será que existe uma vontade intencional capaz de estabelecer de uma vez por todas, independente do exterior, uma contínua configuração mental ótima? É isso que iremos explorar.
Todos sem exceção vivemos em nossos próprios mundos imaginários. A relação que temos com o próximo depende diretamente desse mundo imaginário. É de dentro de seu próprio mundo imaginário que uma pessoa envia suas mensagens ao próximo. A precípua condição de investigação a que nos propomos é entrelaçar essa relação individual com o mundo numa fusão atemporal. Dessa forma quebrando a rigidez lógica pessoal, que é parte de seu mundo imaginário particular, e adentrar numa condição mental absorta, apta a captar as mensagens que se cruzam entre o autor e o leitor, sem passar pelo crivo racional, indo diretamente ao subconsciente. Retirando dali sua essência para ser analisada. É natural que haja uma resistência a isso. Pode ocorrer uma transformação mental radical, afinal de contas estaremos adentrando o mais profundo do ser. E o melhor caminho para isso é o caminho direto.
Vale lembrar neste preâmbulo de considerações metafísicas, de fundo consciencial, que no decorrer da história recente de nossa cultura, a maioria das palavras foram acometidas de uma prolixidade inenarrável. O governo, entidades públicas e privadas, meios sociais e individuais, deturparam, cada qual a seu modo, o sentido prévio de inúmeras palavras e frases, para caber dentro de seus interesses passageiros e na maioria das vezes mesquinhos. Portanto, caro leitor, saiba de antemão que este texto deve ser lido com uma embuída atitude libertária, em primeiríssimo lugar, livre das pressões sociais. As palavras que utilizarei, de forma a barrar a má interpretação que possa ser ocasionada por essa contaminação, que aviltaria sobretudo o sentido mais profundo do que temos a considerar, não tem sentido em nenhum contexto além deste. Destacado este pormenor, gostaria, portanto, doravante me expressar com a mesma liberdade que o leitor deverá se firmar; na recepção clara e concisa da matéria em questão. Lembrando sempre que qualquer erro de interpretação é impossível, porquanto a meta não está na semântica nem na lógica, muito menos na coerência, e sim no aprofundamento mental.
Apesar da aparente confusão que o leitor possa se encontrar, em algum momento, perante o texto, tudo se esclarecerá à medida que vier uma concisão oriunda da compreensão global, que só ocorrerá no final da leitura. O leitor saberá distinguir exatamente onde o texto lhe afeta. E nesta afetação obterá a convicção de que está caminhando para algo importante a ser descoberto. O escritor, por sua vez, não é ninguém, não interessa quem ele é, nem o que faz, nem o que pretende, nada pode lhe interessar sobre o autor. Tem que haver um desvinculamento, um desprendimento do mundo social, à medida que os capítulos forem se sucedendo. Isso não é uma pré-condição, mas sim a idéia central da investigação. Este é o tema, o conteúdo e a forma.
Outra consideração, concomitante às anteriores, no entanto mais comum, em preâmbulos de tratados filosóficos, é a importância que o leitor deverá dar na ingestão dos capítulos iniciais, que realizam um apanhado geral de todos os principais termos prolixos deturpados, e sua explicação pormenorizada, que serão utilizadas nos capítulos ulteriores. Estas definições iniciais, vale ressaltar, sempre foram necessárias quando da apresentação de assuntos onde se utilizam termos já conhecidos com nova conotação. Esta abordagem pragmática inicial é necessária, sem a qual, em passagens posteriores, a sequência do raciocínio poderia se perder. Lembro, portanto, ao querido leitor, o cuidado que deve ter ao mergulhar no profundo texto que tenho a oferecer, munido com as salvaguardas dos capítulos iniciais, sem as quais se afogaria sem dúvida alguma.
A atitude de fato, que deveis ter, é a de um aventureiro intelectual que adentra uma densa floresta desconhecida, sob as frondosas sombras das árvores que umedecem e refrescam o ar, e criam uma atmosfera densa, às vezes temerosa. E pelas enviezadas vegetações que dificultam seu avanço, não poderá dispensar os úteis artefatos que ofereço, desde já, especialmente estas breves orientações, que são similares a um facão.
O sentimento, que em outros tempos fora pintado como sendo um coração, naquele seu aspecto onde se apresenta doce, sem perder o fio da razão; este é o estado emocional ideal para continuar, o leitor, a desvendar este preâmbulo e os conseguintes capítulos. Não há outra forma mais fidedigna de compreensão do que fazer o sentimento aliar-se ao raciocínio, numa conjunção única para alçar o voo libertário da consciência, tema deste tratado.
Ajuda também, ao leitor, saber que este trabalho é resultado de uma profunda compaixão pelo triste destino dos seres humanos. E que neste momento, é de um sofrimento inenarrável que retiro a força da qual faço uso para alinhavar estas páginas com amor. Apesar de parecer contraditório, a força intelectual correta que nos guia vem da dor, pois, conforme mais tarde tentarei mostrar, é desse tipo de sofrimento que resulta uma espécie de sadia seriedade, capaz de acolher os pensamentos e ordená-los numa sequência lógica, sem perder a compostura que outro sentimento qualquer poderia suscitar.
No geral, o direcionamento do texto é de esclarecimento. Sobre a vida mental e seus princípios essenciais que a distingue da morte mental. E de agora em diante me refiro a tal morte mental, que disponho como meio de contraponto a tudo que é belo e radiante, como sendo o “não ser”. E este é apenas um diminuto exemplo preparatório do referido alerta, exposto anteriormente, quando atento sobre a mudança de sentido que faço, de palavras e termos conhecidos, para enfatizar as profundas idéias que pretendemos alçar.

sábado, 26 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 3: O método de nossa análise da consciência

Analisemos, sinceramente, aquelas nossas próprias considerações apressadas, que nos dirigiram durante nossa vida, e que nos levaram a diversos estados de perturbações psicológicas. Sim, qualquer pessoa que diga ou acredite que nunca esteve confusa e nunca precipitou-se, possui talvez a perturbação mais temerária: o “eu” inflado que engana a si mesmo, incapaz de reconhecer suas fragilidades mentais. Geralmente, tal tipo, é aquele que se justifica em tudo, que às próprias vistas nunca errou.
Olhe para dentro e para fora. A dualidade “eu” e “não-eu” surge. O “eu” crê não ser o responsável pelo que ocorre à sua volta, externamente. No entanto essa obliteração irá gradativamente se desmanchar, no tipo de abordagem que proponho, até percebermos que o externo e o interno são a mesma coisa, e mesmo as falhas dos outros são nossas também. Minha incompreensão é a sua incompreensão. E meu desatino é seu desatino também. Sem essa coragem de se libertar de suas defesas psicológicas, que o mantém distante do texto do autor, como se fizesse uma leitura crítica ao invés de mergulharmos juntos, e sermos um só; sem essa ousadia de abertura da consciência, pelo tempo necessário que investimos neste momento, sem isso a inocuidade tomará conta, com seus mil subterfúgios para negar uma compreensão diferente daquela que já carrega consigo e que permanecerá rígida nas suas convicções de distanciamento psicológico, no fortalecimento do “eu”, que não quer se entregar de jeito nenhum, com medo de perder sua individualidade e autoridade. Neste caso é melhor abandonar logo a leitura.

Por isso vamos ser claros, o mais claro possível, para que a minha compreensão leve você à sua. E todo erro seja exposto, e que minha culpa de não conseguir prescrutar a mente seja também a sua culpa de não consegui-lo. Assim somos dois a nos comprometer com a descoberta, então a tarefa fica mais fácil e o erro menor, pois divido a responsabilidade da exploração, e o resultado passa a depender de nós e não só de mim. Assim apaziguamos o temor que os erros causam. Ou seja, leitor, você é meu companheiro nesta jornada; amealhado subitamente em meio à confusão da vida, convidado a essa viagem inoportuna. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Capítulo I - parte 2: O método de nossa análise da consciência

Vale a pena deixar bem claro já de início: um estudo da mente, pela própria mente, exige um desprendimento completo das amarras que possam limitar a auto-observação. A abordagem deste assunto necessita de total desenvoltura, que se perderia, de outro modo, em meio a preconcebidos enlaces conjecturais inoportunos. Os processos mentais são sutis e delicados, e somente uma investigação absolutamente livre e imparcial pode mirar o âmago da questão, quiçá atingi-lo.
 Além disso, a aventura de descortinar os meandros dos próprios pensamentos depende de uma forte imaginação, que é a única força livre o suficiente capaz de transcender o paradoxo citado no início, e vasculhar as profundezas da mente sem emaranhar-se dentro dela. A característica mais notória da imaginação é justamente a liberdade. E da mesma forma se limitações à imaginação forem impostas de antemão, por meio de conjunturas morais, restrições psicológicas ou formatações técnicas, todo o esforço será em vão. O que torna a imaginação apta a essa aventura introspectiva é sua capacidade inerente em dar saltos dimensionais e tornar possível o impossível. Somente a imaginação pode trabalhar além do campo empírico restrito e ir fundo o suficiente para encontrar o alvo, segui-lo, e trazê-lo à tona, onde poderemos dissecá-lo.
A mente como vimos a dizer, não é um objeto inanimado com o qual podemos realizar observações sem modificar seu conteúdo. A mente parece antes de tudo ser o próprio ser, portanto não há como investigá-la por meio de divisões ou mensurar sua extensão, sem ocasionar uma grave perda de seu sentido global. A abordagem que proponho é acompanhar o texto submergindo gradualmente, refletindo-o dentro de si mesmo, despido de todo conceito e pré-conceito, ou seja, nu.
A sutileza do tema exige um novo padrão de leitura, diferente do normalmente praticado. Isso pode ser feito através de uma correta concentração, necessária para que a consciência adquira uma ótima configuração ao tipo exigido de interpretação, realizando uma imagem externa e interna de sua própria ação em movimento.
Em qualquer leitura, ruídos exteriores ou interiores podem relaxar a atenção, provocando certa confusão que contaminaria a linha de interpretação correta, tornando a leitura ou distorcida ou superficial demais. Para evitar tais empecilhos, como subterfúgio prático, utilizo-me de metáforas por todo o texto, para despertar o leitor, anulando os ruídos que provocam a desatenção. Criando assim uma espécie de exagero aceitável. É necessário aceitar os absurdos alegóricos, que são apelos de concentração à desatenção decorrente das interferências externas. Então, desde já estabeleceremos que o “absurdo” faz parte do conteúdo textual, e considerando que a sua reflexão precisa acompanhar a minha, aceitando este “absurdo”, seguiremos adiante. Com esta predisposição poderemos então conectar uma via possível de entendimento claro e recíproco. No fim, baseamos a investigação na confiança mútua, independente do recurso linguístico utilizado.
Essa confiança é necessária, pois o padrão de acompanhamento mental que usarei é de todo incongruente a princípio. E somente mais tarde se lhe revelará em todo seu sentido. Tomamos por pacto, desde agora, que seguirei minha atividade mental e você terá de seguir a sua, enquanto conversamos, imergindo gradualmente no texto e em seus próprios pensamentos, derivados do meu.