Analisemos, sinceramente, aquelas nossas
próprias considerações apressadas, que nos dirigiram durante nossa vida, e que nos
levaram a diversos estados de perturbações psicológicas. Sim, qualquer pessoa
que diga ou acredite que nunca esteve confusa e nunca precipitou-se, possui
talvez a perturbação mais temerária: o “eu” inflado que engana a si mesmo,
incapaz de reconhecer suas fragilidades mentais. Geralmente, tal tipo, é aquele
que se justifica em tudo, que às próprias vistas nunca errou.
Olhe para dentro e para fora. A
dualidade “eu” e “não-eu” surge. O “eu” crê não ser o responsável pelo que
ocorre à sua volta, externamente. No entanto essa obliteração irá
gradativamente se desmanchar, no tipo de abordagem que proponho, até percebermos
que o externo e o interno são a mesma coisa, e mesmo as falhas dos outros são nossas
também. Minha incompreensão é a sua incompreensão. E meu desatino é seu
desatino também. Sem essa coragem de se libertar de suas defesas psicológicas,
que o mantém distante do texto do autor, como se fizesse uma leitura crítica ao
invés de mergulharmos juntos, e sermos um só; sem essa ousadia de abertura da
consciência, pelo tempo necessário que investimos neste momento, sem isso a
inocuidade tomará conta, com seus mil subterfúgios para negar uma compreensão
diferente daquela que já carrega consigo e que permanecerá rígida nas suas
convicções de distanciamento psicológico, no fortalecimento do “eu”, que não
quer se entregar de jeito nenhum, com medo de perder sua individualidade e
autoridade. Neste caso é melhor abandonar logo a leitura.
Por isso vamos ser claros, o mais
claro possível, para que a minha compreensão leve você à sua. E todo erro seja
exposto, e que minha culpa de não conseguir prescrutar a mente seja também a
sua culpa de não consegui-lo. Assim somos dois a nos comprometer com a
descoberta, então a tarefa fica mais fácil e o erro menor, pois divido a
responsabilidade da exploração, e o resultado passa a depender de nós e não só
de mim. Assim apaziguamos o temor que os erros causam. Ou seja, leitor, você é
meu companheiro nesta jornada; amealhado subitamente em meio à confusão da
vida, convidado a essa viagem inoportuna.
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