terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mirabolante Kant - parte 3 - De Prima

Primeiros Princípios (De Prima)

Saiba leitor que filosofia é coisa séria. Os princípios de qualquer tratado filosofístico é sempre recheado de definições. A mente memórica do estudante precisa ficar bastante atenta e mneumonizar o melhor possível os primeiros ensinamentos, caso contrário todo o resto não servirá nem de patê pra porco. Preste, portanto, total atenção e memorize este palavróio vocabular inicial, pois ele será usado constantemente por todo o derramamento sucedâneo deste grandioso compêndio.
A preleorgástica compreensão iniciática de Kant diz respeito a dois temerosos conceitos: "a priori" e "a posteriori". Para explicar estes conceitos, o maioral dos maiorais, Ele, dedica várias inergúmicas páginas iniciais de seu obtsângulo livrão. Vêmo-lo então por quê!
O conhecimento, diz Ele, só pode vir da experiência. Tudo o que conhecemos primeiro passou pelas impressões do sentido para depois tornar-se conhecido. Até aí não há nenhuma novidade além do que Hume já expusera anteriormente. Os empiristas ingleses passaram a vida toda dizendo isto. A diferença é que nosso sapeca Kant, logo após às suas anteriores observações, propõe que apesar do conhecimento vir da experiência, ainda assim resta um tipo de conhecimento que não vem da experiência. Esse tipo de revorteio contradiz o que ele mesmo diz, e assim abre um vácuo mental no estudante, logo de cara, deixando-o aturdido para num golpe de surpresa, preparar seu espírito para o entróito de seu dualismo quase maniqueísta nas definições dos conceitos de "a priori" e "a posteriori".
Caro leitor, "a priori" é a estrutura mental formada de prévios conhecimentos, que lá estavam antes de qualquer outro conhecimento abduzir teus impávidos neurônios. À época de Kant não se conheciam os neurônios, portanto ele inventa todo um mirabolante processo de diarréia verbal pra afirmar que existe uma estrutural mental anterior e que sustenta os outros conhecimentos. Essa estrutura a que ele se refere por conhecimento "a priori", sabemos hoje, que se trata do arranjo neuronal da massa encefálica. Apegando-se a surubáticas explicações para dar peso filosófico a seus argumentos, Kant, apesar de tudo, acerta na mosca. Sim, existe de fato "uma" conhecimento subjacente a todos os outros. E, realmente, podemos chamar isso de conhecimento "a priori". Dá-lhe Kant.
Kant utiliza-se de alguns exemplos em seu devaneio laboral introdutório. As leis matemáticas para ele são prova de que algo é conhecido antes da experiência. Kant acredita que a própria estrutura mental, a priori, é que dá garantia às leis matemáticas, pois sendo a estrutura mental - conhecimento a priori - o processo intrínseco pelo qual pensamos, esta estrutura força a própria realidade conhecida, do modo que a conhecemos, a ser do jeito que é. Para Ele as leis matemáticas não são um produto de milhares de experiências que pela repetição lhe dão integridade, pois se assim fosse, como queria Hume, estas leis não poderiam ser exatas e absolutas como são. Por outro lado seria impossível demonstrar qualquer uma das leis matemáticas através de um método totalmente empírico, pois teríamos que experimentar estas leis em todas as suas possibilidades aplicáveis, sem exceção. Sabemos que não é possível pegar todos e quaisquer dois objetos existentes, e dispondo-os juntos demonstrar que todos um mais um são dois. Ou seja, empiricamente é impossível demonstrar que as leis matemáticas são leis advindas da experiência empírica. Diz ele, então, que tem que haver um conhecimento a priori.
Outro exemplo, similar ao anterior, com o qual Kant procura demonstrar a validade de seu argumento a favor do "a priori", é relativo à máxima de que "toda consequência tem uma causa". No campo fenomênico tudo que se apresenta possui uma causa. Isso não pode, segundo Ele, ser simplesmente uma indução obtida por inúmeras experiências. A noção de causa e consequência é algo que já estava na cabeça quando nascemos, e que nos permite conceber a realidade.
Kant além de apresentar os conceitos de "a priori" e "a posteriori", discorre sobre diferentes "a priori"; no fundo ele quer apenas reforçar a ideia de que "a priori" tem que ser puramente "a priori". O "a priori" não pode derivar de nenhuma forma de conhecimento "a posteriori". Nesse intento ele propõe que para ser "a priori" o conhecimento tem que ser necessário e também absolutamente universal. Sendo que basta provar uma destas condições para demonstrar automaticamente a outra. Mas nós vamos pular estes pormenores assim como várias outras partes desta magnífica obra, caso contrário estenderíamos nossa singular apresentação à mesma ou maior quantidade de páginas que à d'Ele, e isso foge às nossas pretensões. Fiquemos apenas com o supra sumo!
Após larga e pormenorizada explicação de "a priori" e de "a posteriori" - aliás, "a posteriori" é todo conhecimento que provém da experiência sensível - o magnânimo Lord Kant entra nos conceitos de "juízo analítico" e "juízo sintético". Mas antes, vale a pena diagramar algumas poucas e boas observações.
A filosofia está muito acima da ciência, assim como também é superior a todas as outras metodologias de pensar. Filosofia é a forma, por concepção, mais livre de pensar. Toda forma de pensar é uma forma filosófica de pensar. Existem formas medíocres de pensar, estas são as filosofias baratas. Existem formas mais nobres, às quais nosso amigo Kant e outros ensejaram fazer parte. Até mesmo a religião é uma filosofia, pois é um modo de pensar, apesar de medíocre. Na época de Kant, a ciência não era mais do que uma sugestão aristotélica de estudo. Hoje, o modelo científico é um representante bem sucedido de uma filosofia originalmente boa e produtiva. A vaidade, no entanto, pariu motes de doutores em ciência que se acham donos da íris quando na verdade possuem apenas uma visão espectroscopicamente unilateral dos fenômenos e da vida. Kant, representante daquela era de metafísicos, um tanto quanto desprezados pela moderna visão do mundo, apresentou um trabalho que tinha como objetivo estabelecer um novo sistema de certezas, autêntico e preciso, sobre a capacidade racional do ser humano. Assim como todas as filosofias - derivadas da liberdade filosófica - são apenas parte do conjunto filosófico, o sistema de Kant também apresenta seus limites. Mas isso não invalida seus argumentos, e mais que isso, dentro da bolha Kantiana sua tese não só é válida como irrepreensível.
Imagine algo que sai de dentro de si mesmo. Assim como um pinto sai do ovo. Isso é juízo analítico. Contrapondo-se ao juízo analítico temos o juízo sintético. Temos um juízo sintético quando de uma expressão chegamos à outra que não estava já contida na anterior. Quando dizemos, por exemplo, que o universo é infinito, estamos frente a um juízo analítico, pois a noção de infinito já estava incutida na noção de universo. 
A dificuldade começa quando Kant tenta demonstrar a existência de juízos sintéticos a priori. Em outras palavras, diz ele, que o arcabouço do conhecimento, o invólucro do conteúdo sapiêntico, pode a priori ajuizar sobre algo que não estava lá dentro dele. É o mesmo que dizer que de um saco vazio podemos tirar um biscoito. Sem claro, distorcer a lógica transcendental geral.
Imaginamos que existe a natureza e que foi dela que viemos. Mas a natureza é na verdade uma representação daquilo que estamos aptos a perceber. A natureza ela mesma, assim como qualquer objeto dela, não são conhecíveis em si mesmos. O que nos é permitido conhecer precisa passar por um filtro dos sentidos. Não estamos aptos a perceber a realidade como ela é mesmo. Somente a vemos através de uma representação mediada pela nossa capacidade de percebê-la. De um lado temos o subjetivo e de outro a realidade. E a realidade não se apresenta por si mesma, mas sim pela mediação subjetiva.
Esse ente que percebe, que chamamos de eu, consegue representar particulares do todo que é percebido. Mas o eu nada mais é que uma apercepção, pois ele não consegue perceber a si mesmo a não ser também através de uma representação. A apercepção transcendental provê um eu que percebe, e essa apercepção, ela mesma é imperceptível.

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