Prefácio
Engraçado como sou tão burro. Quando resolvi estudar Kant, depois de bastante leitura, fui corajosamente testar minhas novas sabedorias com outros estudantes, num chat. Descobri que ali perambulavam diálogos por demais sofisticados sobre o tema; muito além de minha ignorância transcendental. Os chatíssimos apresentavam tanta desenvoltura àqueles rudes conceitos que com tanto esforço eu pelejava em compreender. Perdi pernoites e dias dependurado em tão granítica obra da razão pura, tentando lascar ao menos um tantico de sabedorência, e lá estavam aqueles jovens como se zombassem da minha burrice, jogando arrevelia e naturalmente, juízos sintéticos e analíticos, pra lá e pra cá, com presteza e referências, dando um verdadeiro baile nas minhas pretensões de filosofista.
Se burro já era, mais aburrecido fiquei. Pra não dizer abestalhado pateticamente apático na paripateutica perda de tempo. Tudo em vão. Voltei acabrunhado pro meu escuro brunhão. Filosofei: tem jeito não, minha burrice é infinita.
Mas peraí! Uma coisa notei, no meio daquelas finíssimas conclusões e desconclusões dos chatíssimos, relembrei-me de pequeno quando ficava brigando com meus irmãos: é, num é, é, num é... Esse lembrancil me atinou que tudo aquilo poderia ser apenas conversa de criancicius decoratius. Então arrevoltei-me e fui ter novamente com Kant, é claro, não sem antes tomar meu sucrilhos.
Foi então que adentrei-me vigorosamente nos escritos de Kant como se fosse o próprio Hércules trespassando Vênus. Então eu vi. Encontrei o sentido mais profundo da titânica obra. Nos recôndidos da minha mente, regozijava-me em turbilhões ter encontrado o fio da meada, perdida na pororoca dos ludibriados e endiabrados doutores da filosofia; e dessa vesga entreolhada, destrambelhei o tecido dos orgulhosos e renomados apedeutas dos mais longínquos frontispíceos limites da arrogância acadêmica.
Sim, eu encontrei a solução da equação. Tuti veritatis.
Estava lá, brilhando na abóboda celeste do meu crânio. E eu babando de estupefação.
Finalmente encontrei o sol da meia noite. A luz que não padece. O raio lamparínico da iluminação nirvanóica. O tudo do nada. O nada de nada.
Então, depois de tão nevrálgica compreensão, esfuziante e mirabólica, passei finalmente ao largo da burrice. E agora, exporei com todo prazer, nas vindouras páginas, pasmem, a substância da quintessência filosófica Kantiana. Aleluia!
Nenhum comentário:
Postar um comentário